O que é SLA (acordo de nível de serviço) e como montar um

Sem acordo escrito, nível de serviço é expectativa. E expectativa não medida vira reclamação.

· 9 min de leitura
Revisado em

Os sete elementos de um SLAA ausência de qualquer um deles cria um tipo específico de problema depois. 1 Escopo do serviço O que está incluído, e principalmente o que não está 2 Objetivos do serviço Alvos mensuráveis, tempo de resposta, disponibilidade 3 Responsabilidades do fornecedor O que ele se obriga a fazer, e em que prazo 4 Responsabilidades do cliente Informação, acesso ou aprovação que ele precisa dar 5 Indicadores de desempenho Sem isso, o documento não é verificável 6 Penalidade e compensação O que ocorre quando o nível não é atingido 7 Revisão e renovação O elemento mais negligenciado
A ausência de qualquer um deles cria um tipo específico de problema depois.

SLA, do inglês Service Level Agreement, é o documento formal que transforma expectativa sobre um serviço em compromisso verificável. Em português também aparece como ANS, acordo de nível de serviço. Ele define o que será entregue, com que prazo, como isso será medido e o que acontece quando o nível combinado não é cumprido.

A razão de ele existir é simples de enunciar e desconfortável de aceitar: sem acordo escrito, nível de serviço é expectativa. E expectativa não medida vira reclamação, normalmente na reunião errada.

Ele não é instrumento exclusivo de tecnologia. Serve em suporte, logística, transporte e qualquer relação em que alguém presta serviço para outro alguém. Mas em TI ele tem um lugar bem definido: é o que dá contorno à operação e à sustentação.

O que um acordo precisa conter

Sete elementos, e a ausência de qualquer um deles cria um tipo específico de problema depois.

Escopo do serviço. O que está incluído e, principalmente, o que não está. A parte de fora é a que evita a discussão mais desgastante que existe em sustentação, que é decidir no meio do incidente se aquilo era responsabilidade de alguém.

Objetivos do serviço. Alvos mensuráveis: tempo de resposta, disponibilidade, taxa de resolução no primeiro contato.

Responsabilidades do fornecedor. O que ele se obriga a fazer, e em que prazo.

Responsabilidades do cliente. Igualmente importante e quase sempre esquecido. Se o cliente precisa fornecer informação, acesso ou aprovação para o serviço andar, isso é obrigação dele e o relógio deve refletir essa dependência.

Indicadores de desempenho. Como o cumprimento será medido: tempo médio de resposta, tempo médio de resolução, taxa de disponibilidade. Sem isso, o documento não é verificável, é declaração de intenção.

Penalidade e compensação. O que ocorre quando o nível não é atingido. Não precisa ser punitivo, mas precisa existir, ou o acordo não tem peso.

Revisão e renovação. Com que periodicidade o acordo é revisto. É o elemento mais negligenciado, e o que faz um acordo bom envelhecer mal.

Vale dizer que o acordo só funciona com as duas partes envolvidas na elaboração. O cliente precisa declarar necessidade e expectativa; o fornecedor precisa avaliar honestamente se consegue atender. Acordo escrito por um lado só é orçamento disfarçado de compromisso.

E ele precisa ser claro, curto e sem ambiguidade. Documento que exige interpretação será interpretado de forma diferente pelos dois lados, exatamente no dia em que isso importa.

A base: definir severidade por impacto

Antes de prometer prazo, é preciso combinar o que é grave. Essa é a parte que mais gera atrito quando fica implícita, porque cada área acha que o seu problema é o mais urgente.

O critério que funciona é impacto no negócio, e a existência ou não de contingência disponível para o cliente enquanto o serviço é restaurado.

Níveis de severidade por impacto. A pergunta que separa alta de média é se existe contingência disponível para o usuário.
SeveridadeDescrição
CríticaProcessos críticos de negócio estão parados. Não há contingência que possa ser feita pelo usuário final.
AltaAplicações individuais ou número limitado de funções estão interrompidas. Não há contingência que possa ser utilizada pelo usuário.
MédiaAplicações individuais ou número limitado de funções estão interrompidas. Há uma medida de contingência com extensão limitada.
BaixaNão se caracteriza interrupção efetiva de um serviço ou função.

Repare no que a tabela faz e no que ela evita. Ela não classifica por área, por sistema nem por quem abriu o chamado. Classifica por quanto do processo parou e por se existe saída provisória. Essas duas perguntas resolvem a maior parte das discussões de prioridade sem precisar de reunião.

O acordo em si

Com a severidade definida, o acordo fica direto. Este é um modelo simples que serve para boa parte das operações.

Modelo de acordo. Atendimento é o prazo para alguém assumir o chamado; resolução é o prazo para restaurar o serviço. O percentual é o grau de cumprimento exigido sobre o total de chamados do período.
SeveridadeAtendimentoResolução
Crítica2 horas corridas, em 95% dos casos4 horas corridas, em 95% dos casos
Alta4 horas em 90%, 6 horas em 95%8 horas em 90%, 12 horas em 95%
Média8 horas em 90%, 12 horas em 95%20 horas em 90%, 36 horas em 95%
Baixa ou normal24 horas em 85%, 40 horas em 90%36 horas em 85%, 48 horas em 90%

Três detalhes desse modelo que valem atenção, porque são o que separa um acordo que funciona de um número solto no contrato.

Atendimento e resolução são compromissos diferentes. Atendimento é o prazo para alguém assumir o chamado e dar resposta; resolução é o prazo para o serviço voltar. Acordo que promete só um dos dois deixa o cliente sem saber se foi esquecido ou se está sendo tratado.

O grau de cumprimento é percentual, não absoluto. Prometer "toda crítica em 2 horas" é prometer 100%, e 100% não sobrevive ao primeiro feriado. Prometer 95% em 2 horas é honesto e verificável: mede-se o conjunto de chamados do período, não caso a caso.

Os dois patamares por severidade são uma escada. Em severidade alta, 90% dos chamados em 4 horas e 95% em 6 horas. Isso reconhece que a cauda existe, e a limita, em vez de fingir que ela não aparece.

Uma coisa que o modelo deixa a definir, e que precisa ficar explícita no acordo real: qual é a base do relógio. A severidade crítica está em horas corridas, o que faz sentido para processo parado. Para os demais níveis, é preciso dizer se são horas corridas ou horas de expediente, e qual é o expediente. Essa única linha responde por boa parte das disputas de apuração.

Por que isso importa além do contrato

O acordo é frequentemente tratado como formalidade jurídica, e é onde ele rende menos. Eu gosto de usar em serviço de sustentação e operação, e os ganhos são operacionais antes de serem contratuais.

Documentação. Especifica com clareza o que foi acordado, e é o que se consulta em vez de negociar de novo.

Papéis e responsabilidades. Orienta time e usuário sobre como agir dentro do serviço acordado.

Mapa de severidade. Define objetivamente urgência e prioridade, o que tira a decisão do campo da insistência.

Tempo de atendimento. Prazo por severidade, o que permite dimensionar equipe com base em algo, e não em sensação.

Métricas. Este é o ganho principal. Com severidade, prazo e cumprimento definidos, existe insumo para relatório, indicador e melhoria contínua. Sem acordo, não há linha de base, e sem linha de base não se sabe se o serviço melhorou ou se o mês foi mais calmo.

Plano de comunicação. Dá visibilidade a quem tem interesse sobre nível, papel e responsabilidade, antes do incidente e não durante.

Duas armadilhas

Acordo que nunca é revisto. Prazo definido na assinatura do contrato e nunca revisitado envelhece junto com o produto. O volume muda, a arquitetura muda, a criticidade dos processos muda. O elemento de revisão periódica existe justamente para isso, e é o primeiro a ser ignorado.

Acordo usado como escudo. Quando o acordo passa a servir para provar que a culpa é do outro lado, ele deixou de ser instrumento de gestão. Na minha visão, esse é o sinal mais confiável de que a relação já está ruim: enquanto o acordo é usado para dimensionar e melhorar, ele funciona; quando começa a ser citado em reunião para atribuir responsabilidade, o problema já não é de nível de serviço.

Na sua organização, o acordo de nível de serviço é revisado com alguma periodicidade, ou ele foi assinado uma vez e desde então só é consultado quando alguém quer mostrar que cumpriu?

Perguntas

Dúvidas frequentes

O que é SLA?

SLA, do inglês Service Level Agreement, ou acordo de nível de serviço em português, é o documento formal que estabelece o que o fornecedor se compromete a entregar, com que prazo, como isso será medido e o que acontece se o nível não for cumprido.

O que um SLA precisa ter?

Escopo do serviço com seus limites, objetivos mensuráveis, responsabilidades das duas partes, indicadores de desempenho, penalidade ou compensação por descumprimento, e periodicidade de revisão. Faltando os indicadores, o documento não é verificável.

Qual a diferença entre SLA, SLO e KPI?

SLA é o acordo, e tem consequência contratual. SLO é o objetivo interno de nível de serviço, geralmente mais rígido que o acordado, para dar margem antes de violar o contrato. KPI é o indicador que mede qualquer um dos dois.

Como definir níveis de severidade?

Por impacto no negócio, não por área técnica nem por quem pediu. O critério prático é quanto do processo do cliente parou e se existe contingência disponível para ele enquanto o serviço é restaurado.

SLA serve em contexto ágil?

Serve, e é comum manter SLA de sustentação com time que entrega de forma ágil. O acordo trata do serviço em operação, e não do projeto. O que muda é a revisão: prazo definido uma vez e nunca revisitado envelhece junto com o produto.

Sobre o autor

Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.