Como funcionam os sistemas de recomendação, e por que a maioria é híbrida
O ganho de receita é real, mas vem com um efeito colateral que poucas empresas medem: a bolha de filtro.
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Sistemas de recomendação são algoritmos que sugerem produto, serviço ou conteúdo relevante para cada usuário, analisando o comportamento, a preferência e o padrão de uso dele. Netflix recomendando filme, Amazon sugerindo produto, Spotify montando playlist: são a mesma família de técnica aplicada a domínio diferente, e a maioria das plataformas grandes combina mais de uma abordagem num sistema híbrido.
Esses sistemas não melhoram só a experiência do cliente. Aumentam retenção, engajamento e receita da empresa que os opera, o que explica por que praticamente toda plataforma de consumo investiu pesado nisso na última década.
As abordagens que sustentam a recomendação
Filtragem colaborativa recomenda com base no comportamento de outros usuários parecidos. Se você gostou de um filme que outras pessoas com gosto semelhante também gostaram, é provável que você receba recomendação de outro filme que essas mesmas pessoas apreciaram. A força dessa abordagem é não precisar entender o conteúdo em si, só o padrão de quem consome parecido.
Filtragem baseada em conteúdo olha para as características do que o próprio usuário já consumiu. Gosta de ficção científica, recebe mais ficção científica. A força aqui é não depender de outros usuários parecidos existirem, o que resolve o problema do usuário novo, sem histórico coletivo para comparar.
Sistema híbrido combina as duas, e é a abordagem mais usada em plataforma como Netflix e Amazon, porque cada técnica cobre a fraqueza da outra.
Recomendação sensível a contexto integra a situação atual do usuário, como localização, hora do dia ou dispositivo, refinando ainda mais a sugestão.
Recomendação baseada em rede neural usa aprendizado profundo para capturar padrão mais complexo do que as abordagens anteriores conseguem, geralmente com maior custo computacional.
O que a empresa ganha, além de vender mais
Personalização em escala é o ganho mais visível: analisar dado em grande volume permite criar experiência única para cada usuário sem multiplicar equipe. Maior satisfação e lealdade vêm de sugestão que realmente ajuda, em vez de empurrar produto genérico. Aumento de receita aparece em venda cruzada e ticket médio maior. E existe um ganho menos citado, que é ajudar o usuário a descobrir item que ele nem sabia que precisava, ampliando o alcance de produto menos popular no catálogo.
O efeito colateral que poucas empresas medem
Aqui vale uma pausa, porque o sucesso de um sistema de recomendação carrega um risco proporcional ao próprio sucesso.
Quanto melhor o sistema é em prever o que o usuário vai gostar, mais ele reforça só o que o usuário já demonstrou gostar. Isso é a bolha de filtro: a pessoa para de encontrar conteúdo fora do próprio padrão, e a visão de mundo dela, dentro daquela plataforma, vai se estreitando sem que ela perceba.
Some a isso a questão de privacidade e ética envolvida em coletar e usar dado sensível de comportamento, a qualidade do dado (dado incompleto ou impreciso gera recomendação irrelevante), e o custo computacional de manter modelo avançado rodando em tempo real para milhões de usuários.
Nenhum desses pontos anula o valor do sistema. Mas quem constrói ou compra um precisa decidir, de propósito, o quanto de descoberta o sistema deve preservar, contra o quanto de precisão ele deve maximizar. São objetivos que competem entre si.
Para onde isso está indo
A tendência é recomendação em tempo real, que responde ao comportamento do usuário no instante em que ele acontece, e recomendação multimodal, combinando texto, áudio e vídeo para gerar sugestão mais completa. Uma terceira tendência, e talvez a mais relevante, é explicabilidade: esforço para tornar visível por que o usuário recebeu determinada sugestão, em vez de deixar o algoritmo como uma caixa preta.
Sistema de recomendação bom não é só o que acerta mais. É o que a empresa consegue explicar, ajustar e responsabilizar quando erra.
Perguntas
Dúvidas frequentes
O que são sistemas de recomendação?
São algoritmos que analisam dado de comportamento, preferência e padrão de uso para sugerir produto, serviço ou conteúdo relevante para cada usuário, como as recomendações de filme na Netflix ou de produto na Amazon.
Qual a diferença entre filtragem colaborativa e filtragem baseada em conteúdo?
Filtragem colaborativa recomenda com base no que usuários parecidos consumiram. Filtragem baseada em conteúdo recomenda com base nas características do que o próprio usuário já consumiu. A maioria das plataformas grandes combina as duas num sistema híbrido, porque cada uma cobre uma fraqueza da outra.
O que é bolha de filtro em sistema de recomendação?
É o efeito de reforçar só a preferência que o usuário já demonstrou, limitando a descoberta de conteúdo novo e estreitando a visão de mundo dele. É o principal risco de um sistema de recomendação bem-sucedido demais em prever o que a pessoa vai gostar.
Sobre o autor
Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.