As pessoas estão prontas para a IA. As empresas ainda não.
A adoção aconteceu. A governança ainda não.
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As pessoas já estão prontas para trabalhar com IA. As empresas, na maior parte dos casos, ainda não. Segundo pesquisa da McKinsey de 2026, 70% dos profissionais se sentem preparados para usar IA no dia a dia, mas só 27% dos líderes acreditam que a própria organização está pronta para fazer as mudanças necessárias, e apenas 11% das empresas chegaram ao estágio de reinvenção, em que a IA de fato redesenha a forma de operar.
A Inteligência Artificial já deixou de ser promessa. Está presente no dia a dia de milhões de profissionais. ChatGPT, Claude, Gemini, Copilot e tantas outras ferramentas passaram a fazer parte da rotina de desenvolvedor, analista, engenheiro, equipe de marketing, jurídico, RH e executivo. Em muitas organizações, essa adoção aconteceu de forma espontânea, puxada pelos próprios colaboradores, sem esperar autorização de ninguém.
O problema nunca foi a tecnologia
Esse dado nos leva a uma reflexão importante. O problema nunca foi a tecnologia.
Nos últimos anos, grande parte da discussão girou em torno de modelo de linguagem, agente inteligente, prompt e ferramenta nova. Tudo isso importa, e vale a pena acompanhar. Mas talvez estivéssemos olhando para o lugar errado o tempo todo.
A maioria das empresas já tem acesso às melhores tecnologias do mercado, muitas vezes ao mesmo modelo que o concorrente usa. Os colaboradores já demonstraram disposição para usá-las, sem precisar de treinamento formal para começar. Então por que tão poucas organizações conseguem capturar valor em escala, e não só em ilhas isoladas de produtividade?
Porque a dificuldade não está na adoção da IA. Está na transformação da organização em torno dela.
A adoção aconteceu. A governança ainda não
Hoje é comum encontrar empresa onde cada colaborador usa uma ferramenta diferente, informação sensível é enviada para modelo público sem que ninguém perceba o risco, não existe política clara de uso, ninguém sabe ao certo quanto está sendo gasto com IA porque o gasto está espalhado em dezenas de assinaturas individuais, não há auditoria nem observabilidade sobre o uso dos modelos, e diferentes áreas desenvolvem solução isolada sem qualquer padronização entre elas.
Nesse cenário, a IA gera produtividade individual, e isso não é pouco. Mas dificilmente gera vantagem competitiva para a organização como um todo. Sem uma estratégia comum, cada colaborador resolve um problema local, do jeito que consegue, com a ferramenta que tem à mão. A empresa, porém, continua operando do mesmo jeito de antes, só que com mais gente usando IA por conta própria.
O próximo desafio é organizacional
Assim como a adoção da computação em nuvem exigiu disciplina nova, como FinOps, arquitetura em nuvem e segurança específica para esse ambiente, a IA também exige uma camada de gestão própria, e ainda estamos no início da construção dela na maioria das empresas que conheço.
As organizações vão precisar responder pergunta como: quais modelos podem ser usados em cada tipo de tarefa, quais dados podem ser compartilhados com eles e quais nunca podem sair do ambiente controlado, como garantir conformidade com política interna e regulação que ainda está sendo escrita em vários países, como acompanhar custo e retorno sobre investimento de forma consolidada, como medir ganho real de produtividade sem depender só de percepção, e como evitar a criação de dezenas de soluções desconectadas resolvendo o mesmo problema de jeitos diferentes.
Essa discussão vai muito além da tecnologia. Envolve processo, cultura, arquitetura, segurança e liderança, na mesma proporção. Em outras palavras, envolve governança de IA, e governança boa não nasce de uma política publicada de cima para baixo sem entender como o uso já estava acontecendo.
O que fizemos na Sesatech
Foi essa reflexão que nos levou a desenvolver uma arquitetura própria de governança de IA. Na Sesatech, isso deu origem ao que chamamos de Hub de Governança de IA: uma camada que reúne política de uso, arquitetura, segurança, observabilidade, gestão de custo e métrica num só lugar, em vez de deixar cada área resolver isso sozinha, do seu jeito, com seu próprio orçamento invisível.
A ideia por trás disso é simples de descrever e bem mais difícil de executar: transformar experimentação dispersa em capacidade operacional, sem travar a inovação que a adoção espontânea já tinha começado a produzir. O risco real não é a pessoa usar IA sem permissão. É a organização descobrir tarde demais que não sabe o que está rodando, com que dado, e a que custo.
Preparar a organização será o verdadeiro diferencial
Nos próximos anos, praticamente todas as empresas terão acesso às mesmas tecnologias, quase ao mesmo tempo. O diferencial competitivo dificilmente estará em quem usa o modelo mais recente primeiro. Estará em quem conseguir criar uma organização preparada para usar IA de forma consistente, segura e escalável, e não apenas empolgada com ela.
Na minha visão, a vantagem competitiva vai ser construída pela capacidade de transformar iniciativa isolada em competência organizacional. A próxima onda da IA não vai ser definida por quem adotou a tecnologia primeiro. Vai ser definida por quem conseguiu incorporá-la ao próprio modelo de operação, de um jeito que sobrevive à saída de qualquer pessoa específica.
Se os seus colaboradores já estão prontos para usar IA, mas sua organização ainda não está preparada para governá-la, o desafio da sua empresa ainda é tecnológico, ou já se tornou organizacional?
Fonte: McKinsey & Company, From adoption to impact: Three horizons of AI transformation (2026).
Perguntas
Dúvidas frequentes
Por que as pessoas adotam IA mais rápido que as empresas?
Porque adoção individual não depende de processo, orçamento nem política. Uma pessoa decide sozinha usar uma ferramenta e mede o ganho na própria rotina. Transformar isso em capacidade organizacional exige acordo sobre uso de dado, custo, segurança e padrão, que é uma decisão coletiva e mais lenta.
O que a pesquisa da McKinsey de 2026 mostra sobre adoção de IA?
Que 70% dos profissionais se sentem prontos para trabalhar com IA, mas apenas 27% dos líderes acreditam que a própria organização está pronta para fazer as mudanças necessárias, e só 11% das empresas chegaram ao estágio de reinvenção, em que a IA de fato redesenha como o trabalho é feito.
O que é governança de IA, na prática?
É a camada de gestão que decide quais modelos podem ser usados, quais dados podem ser compartilhados com eles, como garantir conformidade com política interna e regulação, como acompanhar custo e retorno, e como medir ganho real de produtividade. Envolve processo, cultura, arquitetura, segurança e liderança, não só tecnologia.
Por que a adoção de nuvem é uma boa comparação para a adoção de IA?
Porque a nuvem também começou com adoção espontânea e só depois exigiu disciplina própria, como FinOps e arquitetura em nuvem, para virar capacidade madura. A IA está no mesmo ponto: o acesso à tecnologia já existe, o que falta é a camada de gestão em torno dela.
Sobre o autor
Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.