Como formar novos líderes técnicos, e por que promover o melhor técnico não basta
A conta dessa lacuna aparece na primeira vez que o novo gestor precisa dizer não para alguém.
· 9 min de leitura
Empresa que treina bem a capacidade técnica e não forma quem vai liderar acaba promovendo por antiguidade ou por desempenho individual. São os dois piores critérios disponíveis, e os mais usados.
Formar líder exige duas coisas ao mesmo tempo: vivência prática na área que ele vai conduzir, e competência de conduzir pessoas. Falta qualquer uma das duas e o resultado é previsível.
A conta dessa lacuna não aparece no dia da promoção. Aparece na primeira vez que o novo gestor precisa dizer não para alguém, ou defender o time em uma reunião onde ele é o menos graduado da sala.
O que eu observo acontecendo
O ciclo é quase sempre o mesmo.
A empresa contrata gente recém-formada e investe em capacitação técnica. Isso funciona: em um ou dois anos existe um time que resolve problema de verdade.
Chega o momento de alguém conduzir esse time. E aí a empresa faz uma de duas coisas.
Promove o melhor técnico, tratando desempenho individual como prova de capacidade de conduzir. Ou traz alguém de fora com bagagem de gestão e nenhuma vivência naquele tipo de trabalho.
Na primeira opção, você perde o melhor executor e ganha um gestor que não escolheu ser gestor. Na segunda, você ganha alguém que sabe montar cronograma e não sabe estimar se aquele prazo é possível.
Nenhuma das duas é maldade. É consequência de não ter formado ninguém.
A analogia de Esparta, com a ressalva devida
Quando escrevi a primeira versão deste texto, em 2020, usei Esparta como analogia. Mantenho, e agora com a ressalva que o texto original não tinha.
Plutarco relata que, aos sete anos, o menino espartano deixava a casa para a agoge, o treinamento oferecido pela cidade-estado. Recebia formação intelectual e física, aprendia a suportar frio, fome e dor, e depois passava por treinamento rigoroso já dentro do exército. Quem se destacava recebia os cargos mais honrosos.
A ressalva: historiadores tratam esse relato com reserva. As fontes são estrangeiras, escritas séculos depois e simpáticas ao mito espartano. Xenofonte era ateniense admirador de Esparta, e Plutarco descreve, cerca de 500 anos depois, uma Esparta já reduzida a atração turística. Existe até um termo para essa idealização, mirage spartiate, e há historiadores argumentando que parte do que se atribui à Esparta clássica é reinvenção posterior.
Ou seja: não estou afirmando como fato histórico. Estou usando um relato antigo que carrega uma ideia útil.
E a ideia é esta: liderança era formada de propósito, com antecedência, por quem já tinha estado no campo. Não era efeito colateral de tempo de casa.
O que os profissionais realmente querem de um gestor
Aqui eu falo do que ouço em conversa individual, e é bem consistente.
As pessoas querem alguém que conheça a dificuldade do dia a dia delas.
Se o time é de software, elas querem um líder que já desenvolveu software, e não alguém que só levantou requisito. Se o time é de engenharia, querem quem conhece a dificuldade da obra, e não quem é excelente de planilha e cronograma.
Isso não é sobre o líder resolver o problema técnico no lugar delas. É sobre três coisas concretas:
Estimar dificuldade. Quem já fez sabe quando um prazo é apertado e quando ele é impossível. Essa diferença é o que separa negociar prazo de prometer o inviável.
Reconhecer risco antes. Quem viveu a situação identifica o sinal cedo, quando ainda dá para agir, e não no relatório de atraso.
Ter autoridade legítima na discussão. Time técnico aceita ser conduzido por quem entende do assunto. Não é arrogância, é a forma como confiança se constrói ali.
O gestor que só domina escopo, custo e cronograma administra o projeto. Ele não conduz o time. E o time percebe a diferença em duas semanas.
O outro lado: técnico bom não é líder automaticamente
Preciso equilibrar, porque o argumento acima levado ao extremo produz o erro oposto, que é promover o mais técnico e achar que resolveu.
As competências que faltam são justamente as que trabalho técnico não exercita:
Comunicar decisão para quem não é da área. Mediar conflito entre duas pessoas que estão as duas parcialmente certas. Dar retorno difícil sem destruir a relação. Decidir com informação incompleta e assumir a decisão. Priorizar entre coisas legítimas, o que significa dizer não para gente boa com pedido razoável.
Nada disso aparece em métrica de produtividade individual. E nada disso se resolve com um treinamento de dois dias sobre liderança.
Se resolve com exposição gradual a responsabilidade real, com acompanhamento. Deixar a pessoa conduzir uma frente pequena, participar da negociação de prazo junto, escrever a comunicação difícil e receber revisão antes de enviar. Errar em situação de baixo risco, com alguém olhando.
Isso é lento e é a única coisa que eu vi funcionar.
Como eu identifico quem tem potencial
A pergunta mais útil não é quem produz mais. É quem as pessoas procuram quando têm dúvida, sem que isso esteja no organograma.
Costuma ser quem explica bem, o que já é sinal de que domina o assunto de verdade. Quem assume um problema que não era dele porque estava travando o time. E quem consegue discordar sem transformar a discussão em disputa.
Esse último é o mais raro e o mais importante.
Vale registrar uma coisa que aprendi errando: nem todo mundo com esse perfil quer liderar, e insistir com quem não quer é ruim para os dois. Existe carreira de profundidade técnica, e ela precisa ter progressão de verdade, não ser o consolo de quem não virou gestor.
Por que isso ficou mais urgente, não menos
Em 2020 eu fechei este texto falando da quarta revolução industrial e de trabalho técnico sendo substituído por máquina. O argumento envelheceu bem, e por um motivo que eu não previa com essa clareza.
Com inteligência artificial dentro do ciclo de desenvolvimento, a parte executável do trabalho técnico ficou mais rápida e mais barata. O que não ficou mais barato foi decidir o que construir, avaliar se o resultado presta, e responder pela consequência.
Isso empurra o valor para cima, na direção de julgamento e de condução de pessoas. E torna a lacuna de formação de líder mais cara, não menos.
O líder que a operação vai precisar conduz pessoas, processos automatizados e agentes de IA, e precisa saber o suficiente de cada um para não ser enganado por nenhum.
Formar isso leva anos. Que é exatamente o motivo para começar antes de precisar.
Na sua organização, existe alguém sendo preparado hoje para a posição que vai abrir no ano que vem?
Perguntas
Dúvidas frequentes
Por que promover o melhor técnico a gestor costuma dar errado?
Porque desempenho técnico e capacidade de conduzir pessoas são competências diferentes, e a promoção trata uma como prova da outra. O resultado comum é a empresa perder o melhor executor e ganhar um gestor sem preparo, insatisfeito com o novo trabalho.
Líder de time técnico precisa ter vivência técnica?
Na minha experiência, sim, na área que ele vai conduzir. Não para revisar o trabalho de cada um, mas para saber estimar dificuldade, reconhecer risco antes que ele apareça no prazo, e ter autoridade legítima em discussão técnica. Quem só domina escopo, custo e cronograma administra o projeto e não conduz o time.
O que uma empresa precisa desenvolver para formar novos líderes?
As competências que ninguém exercita no trabalho técnico: comunicação, resolução de conflito, dar retorno difícil, decidir com informação incompleta e priorizar entre coisas legítimas. Isso se desenvolve com exposição gradual a responsabilidade real, com acompanhamento, e não com um curso pontual de liderança.
Faculdade prepara para liderança?
Raramente, e é razoável que não prepare, porque liderança se aprende exercendo. O problema não é a graduação em si, é a empresa esperar que a formação venha pronta de fora e não investir em desenvolver quem já está dentro.
Como identificar quem tem potencial de liderança no time?
Observando quem as pessoas procuram quando têm dúvida, sem que isso esteja no organograma. Costuma ser quem explica bem, quem assume problema que não era dele e quem consegue discordar sem transformar a discussão em disputa. Nada disso aparece em métrica de produtividade individual.
Sobre o autor
Raphael Fontes é executivo de tecnologia e lidera a tecnologia da Sesatech como Diretor de Tecnologia (CTO). Escreve sobre inteligência artificial, automação, engenharia, dados, gestão de projetos e liderança. Trajetória completa.